defendemos o fumante, não o fumo: 
quer parar de fumar ou reduzir?
 

direito à saúde
porque os fumantes têm direitos iguais na assistência médica

O Professor John A. Dormandy, Cirurgião Vascular - St George Hospital em Londres, deu esta resposta corajosa após o anúncio de que os hospitais de Norfolk e Staffordshire recusariam realizar cirurgias em pacientes fumantes enquanto eles não abandonassem os cigarros. Além de confessar que é fumante há 50 anos, coisa que raros profissionais em posição muito inferior à dele fazem, classificou a atitude como imoral. A sua resposta vai ao encontro das nossas posições porque mostra o quanto os médicos estão se afastando da própria missão da profissão ao tratarem a questão do fumante.

 

"Isso não apenas imoral: é dar aos fumantes tratamento pior do que recebem os assassinos"

 

Fumar é um hábito sedutor. Tenho visto como isso pode bloquear artérias e já tratei muitos pacientes cujos problemas eram diretamente ligados ao seu vício.

 

Mesmo assim, acho que a proposta de negar cirurgias a fumantes é mais um exemplo de loucura do politicamente correto. Como é que criminosos violentos podem receber cirurgia e há dúvidas se os fumantes teriam esse direito?

 

Os médicos são obrigados a tratar seus pacientes da forma que os recebe, e a simples sugestão de que alguém poderia ter este e outros procedimentos para salvar a vida negados simplesmente porque são fumantes é imoral.

 

Quando recebo um paciente que levou um tiro, não lhe pergunto quais foram as circunstâncias. Se um indivíduo embriagado é internado após bater o carro numa árvore, não me recuso a atendê-lo - isso é brincar de Deus.

 

É nossso dever como médicos aconselhar nossos pacientes sobre seus riscos. Se um paciente fuma dizemos que ele tem maior probabilidade de desenvolver um câncer de pulmão aós a cirurgia, porque isso pode ser um efeito colateral da anestesia geral.

 

E se um paciente vai fazer um bypass coronariano, minha especialidade em cirurgia cardíada, são alertados que caso continuem a fumar, outras partes da artéria vão se estreitar e eles precisarão de outras cirurgias ou correrão risco de outro infarto.

 

Mas uma vez que um fumante sobrevive a uma cirurgia como a de prótese de quadril, por exemplo, a recuperação será igual a de qualquer outro paciente. Se o paciente resolve não ser operado após ter recebido nossos conselhos, a decisão deve ser dele.

 

Isso é muito diferente do que dizer que ele não deve ser operado porque foi o cigarro que causou sua doença.

 

Nosso dever é tratar os pacientes da melhor forma possível, independente de como eles adoeceram, e não castigá-lo por causa do seu estilo de vida. A única excessão é no caso de um transplante, pois o número de doadores é pequeno e devemos beneficiar aquele que tem maiores chances. Se houver apenas 1 coração e temos que escolher entre um senhor de 80 anos, que já teve 3 infartos e fuma, e um indivíduo de 40 que não fuma, o de 40 terá prioridade.

 

Isso, infelizmente, é inevitável quando os órgãos são racionados. Mas para cirurgia vascular - que normalmente não é racionada - não julgamos se o paciente é uma pessoa boa ou uma pessoa má; avaliamos a emergência médica e a cirurgia é realizada com este critério.

 

Não me oponho a essa política apenas como clínico, mas como fumante também. Fumo há 50 anos. Gostaria de não fumar, mas tenho esse vício, apesar de ter conseguido diminuir o consumo.

 

Tentei de tudo, desde adesivos de nicotina à boa e velha força de vontade, mas nada funcionou. Por ano, cerca de 3% de fumantes tentam parar e 80% não conseguem.

 

Porque eu ou qualquer outro paciente que eu atendo devemos ser discriminados por causa do nosso vício? Se o Governo tornasse o fumo ilegal seria diferente, mas enquanto for legalizado a nação deve aos fumantes os mesmos cuidados que recebem os não fumantes.

 

Há tanto fervor anti-fumantes neste país! Vejo no meu próprio hospital: pacientes podem fumar nos jardins externos, mas aqueles que estão literalmente morrendo e impossibilitados de sair do hospital não podem fumar porque não há um local para isto.

 

Esta é a derradeira e totalmente desnecessária crueldade - estamos o privando do único prazer que lhes sobrou. É óbvio que fumar não é um estilo de vida ideal, e os médicos deveriam encorajar fumantes a parar. Mas muitos estilos de vida não são ideais. Deveríamos negar tratamento a homens que abandonam esposa e filhos?

 

Já é tempo do governo parar de discriminar os fumantes e permitir aos médicos tratar todos os pacientes da melhor forma possível. Negar essas cirurgias é simplesmente uma punição.

 

Atenção: Os artigos do Eufumo não tem a intenção de fornecer recomendação médica, diagnóstico ou tratamento.