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médicos estão despreparados para tratar tabagismo

Evidente que estão despreparados. Mas não são só eles. As matérias que aparecem na mídia sobre tabagismo mostram que quase nenhum profissional que lida com o assunto está. Basta dar um "google" usando a palavra "tabagismo".

 

O Portal da lei antifumo paulista, que sequer divulga um telefone para auxílio a tratamento (só tem o de denúncia), ainda tem a pachorra de colocar o "fumo passivo" como único assunto quando escolhemos ler sobre os males do fumo. Mas, como fazem questão de dizer, a lei não foi feita para ajudar o fumante a parar, apesar de constar como prioridade na tão falada Convenção Quadro, que, em tese, norteou o movimento.

 

 

Atenção: Os artigos do Eufumo não tem a intenção de fornecer recomendação médica, diagnóstico ou tratamento.

 

a matéria original


 

Médicos estão despreparados para tratar tabagismo

Lívia Machado, iG São Paulo - 31/05/2011

 

Eles resistem em aceitar o vício como doença e encaram o fumante com preconceito e descaso, aponta especialista do INCA

 

Fuma quem quer, abandona o vício quem tem juízo.

 

A frase preconceituosa e pouco coerente com a realidade do tabagismo no cenário mundial, há décadas reconhecido pela Organização Mundial da Saúde como doença crônica, reflete o pensamento da maioria dos profissionais de saúde no Brasil, afirma Tânia Cavalcante, secretária executiva da Comissão Nacional para Implementação da Convenção-Quadro (CONIQ), ligada ao Instituto Nacional de Câncer (INCA).

 

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Segundo a especialista, a visão retrógrada, calcada em estereótipos tão antigos quanto o cigarro, faz com que tais profissionais desconheçam as formas de tratamento da doença, que pode exigir acompanhamento psicológico e auxilio medicamentoso.

 

“Ainda temos uma visão equivocada em relação ao tabagismo. Os médicos desconhecem os tipos de tratamento, e definem o fumante como o sem-vergonha, aquele que está pouco interessado em tratar, abandonar a dependência do cigarro.”

 

As razões para tal postura são múltiplas, aponta Tânia. Na visão da médica, com a tecnologia os profissionais minimizam o sucesso de tratamentos baseados na avaliação clínica e comportamental – habilidades menos técnicas, mais humanas.

 

“O atendimento ao tabagista pressupõe apoio, conversa, persuasão e acompanhamento. Não se resume em informar sobre os aspectos de doenças, do vício e os riscos à saúde. Em pacientes que apresentam maior nível de dependência, o cigarro pode inclusive mascarar problemas psiquiátricos.”

 

Durante o tratamento, é comum diagnosticar outras doenças associadas. Muitos pacientes apresentam sintomas de depressão ao cortar a nicotina de suas vidas. Em casos mais gritantes, a abstinência pode ser gatilho para a esquizofrenia.

 

O espaço na formação de médicos também é limitado. Nas faculdades de medicina o tabagismo é pouco abordado em algumas disciplinas. A eficácia e alternativas para tratar tais dependentes é raramente discutida em detalhes.

 

“Temos poucos profissionais preparados para esse tipo de abordagem. As lacunas também são educacionais”, afirma a secretária do CONIQ.

 

A entidade lançou nesta terça-feira, 31, dia Mundial Sem Tabaco, o portal Observatório da Política Nacional de Controle do Tabaco, site que reune todas informações sobre políticas públicas e os avanços da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco no Brasil.

 

Procurado pela reportagem, o Conselho Federal de Medicina, por meio de sua assessoria, que "os comentários não refletem a prática da medicina contemporânea, na qual existe ampla compreensão do tabagismo e suas consequências, sendo reconhecida pelos profissionais a importância do uso de medicamentos e suporte terapêutico, associados a um amplo espectro de medidas socioeducativas durante seu processo de tratamento."

 

Programa público

 

O descaso retroalimenta a ineficiência dos programas públicos de tratamento, oferecido pelo Ministério da Saúde, aos municípios interessados. A iniciativa deve partir dos secretários de Saúde. É papel de cada município informar ao Ministério a necessidade de atendimento a seus fumantes. A partir daí, o Governo oferece a capacitação dos profissionais, o material (cartilhas de apoio) e os medicamentos. A distribuição é feita trimestralmente.

 

A possibilidade de escolha dificulta o avanço do tratamento na rede pública. O Brasil conta com 30.135 mil unidades básicas de saúde em todo o País, mas apenas 1300 oferecem tratamento especializado ao fumante, revela Henrique Meirelles, pneumologista da Divisão de Controle de Tabagismo do INCA.

 

A expectativa para 2011 era alta. Em entrevista ao iG Saúde em junho de 2010, Meirelles projetou um avanço incoerente com o cenário atual. Na época, o número de unidades de saúde capacitadas para oferecer o programa de tratamento ao tabagista deveria triplicar, ultrapassando três mil postos. O serviço seria oferecido em 3313 unidades em todo o Brasil até o começo deste ano.

 

“Infelizmente vários municípios programados não iniciaram o atendimento. Portanto, chegamos a cerca de 1300 unidades de saúde atendendo em 863 municípios”, diz.

 

Iniciativas pontuais

 

Das 1300 unidades de saúde que oferecem atendimento ao tabagista, 25 estão localizadas em Maringá, no Paraná, sul do País. Rosangela Treichel Surita, diretora da Vigilância Sanitária da cidade, revela que o tabagismo entrou como prioridade na agenda pública em 2007, quando foi proibido fumar em ambientes coletivos – lei que entrou em vigor para o Estado somente em 2009.

 

A procura da população pelo atendimento norteou o investimento em capacitação. Segundo Rosângela, até o final do ano a cidade terá 300 profissioanis, entre médicos, enfermeiros, psicólogos e auxiliares de enfermagem, capacitados para atender aos aspirantes a ex-fumantes.

 

“Todas as unidades de saúde estão aptas a tratar e medicar os tabagistas. Como a rotatividade dos profissionais nessa área é grande, nos esforçamos para capacitar com frequência, para que o atendimento não fique defasado temporariamente.”

 

Os resultados das iniciativas, porém, ainda não foram mensurados. A secretaria da saúde e a vigilância sanitária de Maringá não transformaram o projeto em censo.

 

“Sentimos que os resultados são positivos por conta da aprovação da sociedade e do crescimento da procura".

 

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