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aviso aos fumegantes - mário prata

23/08/2000

O ESTADO DE SÃO PAULO

 

"Não vou entrar aqui no mérito saúde sobre o cigarro. Mas, como fumante que sou, no mérito (ou seria desmérito?) social.

 

Se um dia algum pesquisador de plantão me perguntar qual é a frase brasileira do século, eu diria: "O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil." Nem me lembro mais qual foi o direitista que disse isso durante o período militar. Mas a verdade é absoluta.

 

Se um dia algum pesquisador de plantão me perguntar qual é a frase brasileira do século, eu diria: "O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil." Nem me lembro mais qual foi o direitista que disse isso durante o período militar. Mas o americano (e o Mateus Shirts está aí para confirmar) precisa ter um inimigo. Sem um inimigo, o país sucumbe. Herdaram isso dos irlandeses e da máfia. Durante várias décadas teve a Rússia, pra se distrair. Um bom inimigo, diga-se de passagem. Guerra fria e quente. Disputa no ar e no fundo dos mares. Mas a Rússia broxou, o comunismo acabou. E o americano ficou procurando inimigos. Tentou o Sadan, mas era fraquinho, coitado.

 

Aí então resolveram atacar o sal. O sal matava. O sal fazia mal ao coração.

 

Proibiram o sal. Depois descobriram que não era bem assim.

 

Foi quando olharam para o próprio corpo e para o McDonald's e resolveram colocar no ar a palavra colesterol. Gordos e bundudos, investiram todas as armas contra as gorduras. Não se podia comer mais nada. Até descobrirem que, comendo ou não as tais gordurinhas, dava na mesma. Deixaram o colesterol de lado.

 

Foi aí então, que pensaram no cigarro. Guerra ao cigarro. Cigarro mata. Já disse que não vou discutir se mata ou não. Tem todo o jeitão de que mata.

 

Mas não posso deixar de informar que em São Paulo a violência mata muito mais.

 

Começaram a proibir cigarro aqui e ali. O negócio chegou ao ponto de existir uma cidade onde não se pode fumar nem no próprio banheiro (Carmel, Califórnia). Descobriram que o cowboy do anúncio do Marlboro morreu de câncer. Bons estrategistas, esses americanos. Peito para fechar as fábricas não têm, mesmo porque acabando a fábrica, acaba o cigarro e eles vão brigar contra quem? Monica Lewinski de novo? Nada disso, temos que continuar o embargo a Cuba e ao cigarro. E o fumante passou a fumar escondido. Em banheiros, em escadarias, noutro cômodo.

 

E o brasileiro achou isso lindo e correu atrás. Americano deve saber o que faz. Começaram com os restaurantes. Depois os shoppings. Hoje já tem prédio onde é proibido fumar até nas escadas.

 

Foi quando surgiu o ex-fumante. Não existe pior caráter do que o do ex-fumante. O ex-fumante é um pentelho presunçoso.

 

Fui ex-fumante três dias. Mas reagi a tempo. Já estava olhando para os fumantes com asco, com ar de superioridade, achando todos perfeitos idiotas.

 

A medicina a nos enganar. Dizem que 80% de câncer no pulmão é de fumante.

 

Mas negam a informação que apenas 15% dos fumantes têm câncer no pulmão.

 

Considerando-se que 100% da população paulistana está sujeita a levar um tiro na esquina, é uma porcentagem aceitável. Mas eu disse que não ia entrar nesse desmérito.

 

Quero mesmo ficar no lado social.

 

Viramos bandidos, inimigos, burros e feios. Encher a cara de álcool, pode. É social. Até cheirar cocaína é bem visto. A sociedade entende. Mas quem fuma, não é perdoado. É olhado com pena, com desdém. Nos olham e pensam: esse aí vai morrer. Como se eles não fossem morrer, fossem eternos.

 

E o ex-fumante se sente um herói dele mesmo. Se acha um gênio, um ser superior. E diz, feliz: fumei 30 anos, parei a tempo. A tempo do quê? De ficar nos enchendo o saco?

 

Não estou defendendo o cigarro. Sei que vou parar. Como diz o Millôr, "parar de fumar é facílimo. Eu já parei umas 20 vezes".

 

Na Europa (Primeiro Mundo, né?) fuma-se mais do que nunca. A França, por exemplo. Não tenho dados aqui, mas acredito que 90% da população adulta fume. Fuma-se até dentro do metrô. E ninguém olha feio. E a população não está diminuindo, não. E olha que o cigarro francês é forte pra burro (ou pra inteligente?). Gostaria de ver alguma pesquisa sobre câncer no pulmão ou estômago feita entre os franceses. E na Alemanha? Fumam entre o almoço e a sobremesa.

 

Não estou aqui fazendo nenhum apologia ao cigarro, não. Sei das suas conseqüências. E estou atento. É que a pior conseqüência de parar de fumar é virar um ex-fumante. E ex-fumante dá câncer. Na cabeça e no saco. Como todo modismo vindo dos Estados Unidos.

 

Atenção: Os artigos do Eufumo não tem a intenção de fornecer recomendação médica, diagnóstico ou tratamento.

 

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