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tabagismo - folha: vícios modernos

Na falta de conteúdo adulto para o tema "Tabagismo", resolvemos publicar este trabalho realizado por um grupo de trainees da Folha de são Paulo, em 2006.

O trabalho trata da dependência como um todo.

 

Com relação à matéria sobre anônimos, o Psiquiatra Flávio Gikovati, em seu livro "Cigarro: um adeus possível", cita a estratégia dos anônimos como modelo a ser adotado na questão do tabagismo.

 

13. Vícios modernos - Acolhida explica sucesso dos anônimos

FOLHA DE SÃO PAULO - 20/06/2004

 

O sociólogo Leonardo Mota, mestre em sociologia pela UFCE (Universidade Federal do Ceará), atribui o sucesso dos grupos de mútua-ajuda, como os Alcoólicos Anônimos, ao sentimento de pertencimento criado pelo grupo.

 

Mota, autor de "A Dádiva da Sobriedade", um estudo com cem membros de Alcoólicos Anônimos em Fortaleza (CE), diz que, a exemplo das igrejas, há dependentes que "se tornam beatos".

 

Para ele, o motivo pelo qual muitos voltam a beber ou passam a depender das reuniões para evitar o vício, está na condição em que chegaram até o AA. "Muitas vezes, o indivíduo pára de beber, mas tem problemas financeiros imensos, está desempregado, a família ficou neurótica." Leia a seguir a íntegra da entrevista com o sociólogo.

 

Folha - O que explica o sucesso do AA?

LM - Quando o AA começou havia apenas tratamentos institucionais de médicos e psiquiatras. O grande sucesso do AA atribuo ao fato de a única pessoa que consegue penetrar no sentimento e conhecer a dificuldade do dependente é outro dependente. Os médicos, com medo de perder o filão, começaram a achar um absurdo. Mas, com o tempo, foram vendo que não era isso.

 

Existe muita rotulação, muita discriminação, muito julgamento de valor, como a palavra vício.

 

Quando a pessoa chega a uma reunião do AA, chega a um lugar onde não será julgada. Será compreendida. Isso produz a solidariedade, esse sentimento de pertencimento na pessoa. É muito importante para quem está sofrendo, chegar e ser chamada como a pessoa mais importante. Geralmente, são pessoas que já foram abandonadas pela família. Não são mais importantes para a sociedade, mas, no grupo, passam a ser. Para mim, este é o grande segredo.

 

Como instituição, também é muito importante o AA não receber nenhuma colaboração de fora, não se envolver em política, não se envolver em jogos de poder. A estrutura da organização foi concebida totalmente independente: é sustentada pelo trabalho dos membros. O foco é sempre ajudar as pessoas a parar de usar álcool. Eles estão tendo muito sucesso, principalmente agora que o governo faz cortes nos programas sociais. Tudo isso contribui para a disseminação dos anônimos.

 

Folha - Muitos membros tendem a freqüentar as reuniões para sempre. Cria-se uma nova relação de dependência com o AA em vez do álcool?

LM - Existem as críticas. Alcoolismo é uma doença que tem um alto número de reincidentes. O AA e o NA (Narcóticos Anônimos) não fazem milagres. Para a pessoa parar de usar é preciso grande determinação. Em toda organização, seja ela religiosa ou não, existem os beatos. Aquelas pessoas que ficam mais atreladas. O AA, em sua literatura, não diz que as pessoas são obrigadas a freqüentar um determinado número de reuniões. Conheço casos de pessoas que foram ao AA durante alguns meses e já não bebem há vários anos. E têm outras que dependem dele.

 

Folha - Por que dependem?

LM - Porque não é só a retirada da substância. Quando alguém chega ao AA, já tem um histórico de muita destruição. Muitas vezes, o indivíduo pára de beber, mas tem problemas financeiros imensos, está desempregado, a família ficou neurótica. Toda uma situação problemática. Por isso, muitas pessoas saem de clínicas e, quando vão para o mundo lá fora, vêem a realidade, se decepcionam e voltam a usar.

 

Às vezes, a destruição foi tão grande que o sujeito não consegue mais se reintegrar. Para essas pessoas, o grupo funciona como uma segunda família. Muitas vezes, há pessoas vivendo situações idênticas. Já vi gente que freqüentava o AA e dormia na rua. Mas em outros, um chega de bicicleta e outro, de Mercedez.

 

Folha - Por que o sr. define o AA como um grupo de mútua-ajuda e não de auto-ajuda?

LM - Porque a auto-ajuda é uma literatura da área do faça você mesmo. Nenhum grupo de AA pode ser fundado por uma só pessoa. Sem o relato da experiência dos outros não é possível a recuperação. Se fosse uma auto-ajuda, bastaria a pessoa ficar dentro de casa lendo um livro do AA.

 

Folha - Existe alguma forma de aferir os resultados do AA?

LM - Oficialmente, a literatura do AA diz que 50% dos que freqüentam com assiduidade as reuniões conseguem a recuperação. Mas, como cientista, não podemos dizer isso porque precisaríamos fazer um exame de controle, o que não é feito devido às características de sigilo do grupo. Mas é um índice, se comparado com o de clínicas, elevado. Mas não existe milagre.

 

É uma recuperação constante, porque o indivíduo pára mas sempre vai ter uma vontade de usar. Vai ficar triste, decepcionado, mas, em vez de correr para um bar ou para uma boca de fumo, ele vai a uma reunião.

 

Folha - O AA tem um forte componente religioso. É possível uma pessoa cética se recuperar com os anônimos?

LM - Eu conheço membros ateus e agnósticos. Em AA, as pessoas evitam discutir religião e conceitos religiosos. Mas é um conceito que se torna complicado. No AA, sempre se fala de um poder superior, mas esse poder é entendido por cada um da forma como ele quiser entender. Por conta dessa dificuldade, nos EUA, já foram fundados muitos grupos seculares, que usam métodos da psicologia.

 

O AA nasceu nos EUA a partir de um grupo evangélico. Seria impossível que não tivesse esse componente religioso. Eu acho difícil uma pessoa abandonar o vício sem ajuda religiosa. O vício é uma tentativa de preencher um vazio, e ele é preenchido pela religião.

 

Folha - Então, os grupos e a religião, na sua opinião, preenchem esse vazio?

LM - Sim. Com o consumo, com as drogas, com o jogo. O vício pode ser entendido de uma maneirta geral. Tem gente viciada em academia, tem gente viciada em trabalho, em comida, em jogo.

 

Folha - Na sua opinião, o que leva uma pessoa a se tornar viciada?

LM - Existe uma estatística que de dez pessoas que tomam o primeiro gole, uma se tornará dependente. Há muitas interpretações para o fenômeno do vício. Com o avanço da ciência, há uma forte indicação de um componente genético. A pessoa já tem uma predisposição orgânica. Uma pessoa sem problema reage quando toma duas, três doses. Mas alcoólicos têm uma resistência muito forte.

 

Folha - Em termos comportamentais e sociais, o que leva as pessoas ao vício?

LM - A dependência é vista como uma síndrome multifatorial. A hereditariedade tem um peso forte. Mas há também o lado psicológico e o meio. A parte psicológica seria uma carência, uma exposição à violência doméstica. O fato social seria uma criação em meio a uma família com grande consumo de álcool. A pessoa, para participar do grupo, tem de beber, muitas vezes iniciada pelo próprio pai. Mas não existe um fator determinante. Há pessoas que passam por tudo isso, mas não apelam para a bebida.

 

Folha -O sr. considera nossa sociedade mais propensa ao vício do que em outras épocas?

LM - Essa busca por substâncias psicoativas é universal e existe desde os primórdios. Até os animais buscam essas substâncias. Os babuínos comem frutas fermentadas e ficam pulando. Os índios bebem em cerimônias religiosas. Na nossa sociedade, o alcoolismo veio a se tornar um problema no século 19, quando surgiram as bebidas destiladas e a produção em massa. Os trabalhadores ingleses eram muito explorados e recorriam ao álcool para buscar alívio.

 

Entre os índios não havia alcoolismo. As bebidas eram usadas em rituais, mas não no dia-a-dia. Em muitas sociedades indígenas, o homem branco usou o álcool para cativar os índios.

 

Numa sociedade capitalista como a nossa, há uma pressão muito forte pelo sucesso, pela autonomia. Como nem todo mundo têm condições de alcançar esse objetivo, isso causa uma frustração muito grande. Isso, aliado à grande oferta, cria o cenário que vemos hoje.

 

Folha - Voltando ao AA, o sr. considera o modelo dos 12 passos muito rígido?

LM - Os passos são colocados como uma sugestão. Nos grupos, eles não são contestados, mas existem grupos sectários no AA que fazem isso. A literatura não coloca os 12 passos como uma obrigação, e sim uma sugestão. Mas sempre há os beatos. O sujeito praticar todos os 12 passos, integralmente, é acho uma coisa difícil. É um programa ascético, tem uma certa rigidez. Mas a rigidez não é um termo certo porque é apenas uma sugestão. Não há muitas pessoas que tenham praticado todos os passos.

 

Folha - Como foi feita a pesquisa?

LM - Entrevistei cem membros de AA em Fortaleza e tive ajuda de pesquisadores dos EUA, de Israel, da Suécia que trabalham nessa área.

 

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