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tabagismo - folha: vícios modernos

Na falta de conteúdo adulto para o tema "Tabagismo", resolvemos publicar este trabalho realizado por um grupo de trainees da Folha de são Paulo, em 2006.

O trabalho trata da dependência como um todo.

 

6. Vícios modernos - Dependência dá a ilusão de que a vida é completa

FOLHA DE SÃO PAULO - 20/06/2004 - EQUIPE DE TRAINEES

 

A incapacidade de lidar com as faltas que a vida proporciona leva pessoas à dependência. Segundo a profª Lisandre Castelo Branco, da Faculdade de Educação da USP, o vício é uma "obturação da falta", dando ao indivíduo uma "ilusão prazerosa de completude". Para ela, tratar a dependência é principalmente aprender a viver com as ausências e frustações da vida.

 

Gostaria que você falasse do vício de uma maneira geral, não apenas em relação às drogas. Como ele se manifesta nas pessoas?

 

Lisandre - Nós estamos vivendo um momento paradigmático em que a biologia, a neurociência, a genética parecem que vão oferecer respostas para todos os enigmas humanos. Embora eu reconheça toda a contribuição importante produzida nesses campos da ciência, eu não reduzo tudo a isso. Ninguém nasce pronto. Ninguém nasce o que é apenas por determinação biológica. Existe essa determinação, mas ela vai se manifestar ou não dependendo de como esse sujeito é inserido no ambiente. Inserção no ambiente não é ser assim ou ser assado. É como esse sujeito interpreta o que ele tem, não tem, o que está disponível, o que não está. Tudo depende de como a gente se insere na vida e isso é feito via processos de interpretação.

 

Por isso é tão difícil prevenir?

 

Lisandre - Com relação a esse tema, não existe uma resposta única para a questão das diferentes dependências. Não dá para tirar um conjunto de regras de prevenção. Isso é impossível. Por que algumas pessoas experimentam certas drogas e não ficam dependentes? Por que algumas pessoas ficam dependentes de chocolate e outras não? Todos nós precisamos e somos orientados a buscar a satisfação de nossas necessidades. É por isso que um bebê chora para mamar, para dormir.

 

Quando buscamos pela primeira vez a satisfação de nossas necessidades, algo se soma a isso, que é o prazer. O prazer é algo que se obtém na satisfação da necessidade, mas que transcende essa mera satisfação. É algo a mais. O prazer é que cria o desejo, é o pai e a mãe do desejo. Todo mundo busca isso. Cada um de nós tem no seu imaginário uma referência de prazer, construída desde o nascimento.

 

Apenas para ilustrar, quando pessoas têm acesso àquilo que vive lhes faltando, elas podem ter reações paradoxais. Ou a pessoa pode usufruir de tudo, "afundando o pé na jaca", ou ela pode rejeitar, já que não sabe quando vai ter novamente, evitando, assim, a dor da perda. Por isso é tão difícil fazer uma criança subnutrida, com padrão alimentar muito precário, se alimentar com qualquer coisa. Elas são muito enjoadas, normalmente. É preciso muito tato e delicadeza para essa criança aprender a comer outras coisas.

 

O que isso tem a ver com o vício?

 

Lisandre - O vício é uma situação bastante controversa, varia desde uma posição que defende a predisposição genética ou do lado oposto, é apenas uma questão social, de lei da oferta e da procura, passando obviamente pelas questões da psique. Acho que existe uma influência hereditária, mas não acho que seja predominante. Há a presença do ambiente e como o sujeito se insere nisso.

 

O ser humano é gregário, precisa do outro. Essa necessidade do outro é bastante visível quando a gente nasce, mas ela permanece pela vida afora, só que vai mudando. Preciso do outro para conversar, para rir, para chorar, para viajar. Isso vai me dando uma medida de quanto o outro é sempre um ser que jamais me completa. Eu também vou descobrindo que jamais completo o outro. Essa é a melhor alternativa para quem quer que sobreviva nessa vida: descobrir que nunca somos completos para o outro e que o outro nunca nos completa. Damos conta de viver com esse tanto de prazer, sem esperar do outro nada mais do que o outro pode dar.

 

Você acha que o amadurecimento é essa capacidade de lidar com seu próprio limite e com os limites do outro?

 

Lisandre - Eu não gosto da palavra limite, dá uma idéia de muro de concreto. Eu prefiro lidar com a idéia de falta. E aqui chegamos no ponto. O que é o vício para mim? Vício é a obturação da falta. A pessoa não agüenta viver a falta, então ela obtura com aquilo que lhe deu, em algum momento, uma ilusão prazerosa de completude. A pessoa torna-se dependente daquilo que lhe dá sensação de completude.

 

O sujeito que fica dependente é aquele que, ao longo da vida, não foi capaz de aceitar pequenas frustrações, desilusões, desencantos, sofrimentos inevitáveis, perdas.

 

Então a curiosidade pelas drogas, no caso, teria um papel coadjuvante?

 

Lisandre - Eu admito a curiosidade, mas dependência é outra coisa. Se a pessoa, por curiosidade, experimenta, e com o uso sente o efeito de obturação da falta, já era. Seja o que for que ela usa.

 

E nesse caso se caracteriza vício até mesmo quando a pessoa pratica exercícios físicos desmedidamente ou faz coisas consideradas saudáveis?

 

Lisandre - Lógico, é nesse campo que a pessoa se completa. Qualquer coisa que propicie essa interpretação de obturação de uma falta.

 

Que caminhos são necessários percorrer para se livrar dessa falsa sensação de completude?

 

Lisandre - Aí a gente vê porque é tão difícil o caminho de volta, pois ele significa aceitar a falta e a desilusão da completude. É o caso daquela mulher que se casa com um homem, imaginando que ele vai se tornar um príncipe. Ela comprometeu o casamento já com essa fantasia, porque o sapo vai continuar sapo. Ela não tolera que o sapo seja sapo, que a vida seja como ela é. Trabalhar dá trabalho mesmo, tem hora que você precisa juntar os seus cacos e fazer uma força brutal, mas tem hora que é extremamente prazeroso. É preciso dar conta disso, viver a vida com a dimensão da vida, das banalidades que podem ser vividas gostosamente ou sofridas dolorosamente.

 

Em que momento da dependência o indivíduo se dá conta que precisa de ajuda, que precisa parar?

 

Lisandre - A própria vida produz um efeito despertar, através da erupção de uma coisa que rompe, que pode ser uma tragédia ou como escapei de uma tragédia. Mas tem que ser uma coisa que irrompe. Henri Lebfevre, em La Vie Cotidiene, definiu a vida cotidiana como uma sucessão de episódios sem cor, marcados pela monotonia das repetições. Como a gente sai da vida cotidiana? Quando algo irrompe, quando algo consegue quebrar essa monotonia e produzir efeito, de acordo com a interpretação que o sujeito der para aquele fato. O sujeito chega numa situação de miserabilidade tão grande diante de si que ele precisa pedir ajuda. A ênfase é estado de miserabilidade que o sujeito vê em si mesmo e o pedir ajuda. Sozinho ele não sai.

 

Então, a família que interna seu filho viciado, que não se deu conta do seu vício, esse tratamento não tem chance de sucesso?

 

Lisandre - As probabilidades são remotas. Só se esse sujeito interpretar essa internação como um gesto amoroso, de proteção e isso for uma das coisas que ele precisava e estava procurando. Mas se, por exemplo, os pais forem muito invasivos, e houver aí uma história de ter sido alvo de muita manipulação, não vai dar resultado nenhum.

 

Como a pessoa se trata de um vício se não há esse retorno da família?

 

Lisandre - É nesse sentido que o outro continua sendo uma referência valiosa, porque esse outro vai falar de mim e vai me mostrar, de algum jeito, o que ele vê. E no caso da família isso é mais forte.

 

Nas relações familiares o indivíduo se vê no outro muito mais que em relação as outras pessoas do seu convívio social?

 

Lisandre - O outro no convívio social não é desprezível, mas o olhar familiar é tanto complacente quanto severo. Esse olhar do outro social consegue dar mais nuances, consegue dar uma visão mais caleidoscópia de nossa realidade, pois somos seres múltiplos.

 

Mudar o indivíduo sem mudar a família adianta?

 

Lisandre - Eu não assumo uma visão reducionista, na qual tudo é culpa da genética, como também não assumo uma posição oposta de achar que o mundo tem que mudar para o indivíduo mudar. É preciso fazer uma revolução copernicana e deixar de ser auto referente, passando a viver em referência aos outros. Quando eu passo de auto referente para uma posição relativa ao outro, de uma maneira plural, eu realizo essa revolução sem mudar o mundo, somente mudando o ângulo do cavalete pelo qual eu via o mundo.

 

 

 

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