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polêmica - ciência para imprensa
3rd hand smoke

Embora alguns sites traduziram o termo como "Fumo de terceira mão", mantemos no original em inglês pelo fato da tradução não fazer sentido em português. (Em inglês, o "fumo passivo" às vezes é chamado de fumo de 2a mão).

 

O conceito "Thirdhand" smoke é um dos exemplos de tentativas de fraude na ciência entre tantas criadas pela Indústria Antifumo. Estas fraudes vem sendo criticadas por números cada vez mais expressivos dentro da comunidade científica, principalmente pelos potenciais riscos que representam para a saúde pública. A divulgação desta publicação pela mídia, por exemplo, ameaça políticas mundiais importantes como a do aleitamento materno.

 

Citado em vários sites como estudo, na verdade, a única coisa publicada a respeito (Pediatrics, em 2008) foi o resultado de uma enquete, muito mal feita, por telefone:

 

Beliefs About the Health Effects of “Thirdhand” Smoke and Home Smoking Bans

(Crenças sobre os efeitos do thirdhand smoke e proibição do fumo dentro de casa).

 

É inacreditável, mas é isto mesmo. O conceito é divulgado inclusive pelo INCA. Segundo o texto do INCA, "Existe um crescente leque de evidências de que esse resíduo do tabaco causa significantes riscos para a saúde". A menção sobre uma "evidência" publicada em uma revista científica é esta enquete.

 

(Se colocarmos o termo em português no Google, gerará o incrível número de 11.100 resultados. Em inglês o número sobe para 199.000).

 

O médico Jonathan P. Winickoff e colegas pesquisadores do MassGeneral Hospital for Children (MGHfC), sem realizar qualquer tipo de medição ou análise, apresentaram o conceito como fato aos entrevistados e perguntaram se seria motivo para uma lei que banisse o fumo dentro das casas. O resultado foi amplamente divulgado pela mídia por veículos igualmente irresponsáveis.

 

O que, segundo os pesquisadores, "thirdhand" smoke é a contaminação pelas partículas dos componentes da fumaça nas roupas, nos cabelos, no chão e paredes das casas e nos objetos.

 

Numa reportagem ao Daily Science, Dr Winickoff diz:

"Quando você entra em contato com seu bebê, mesmo se não estiver fumando, ele entra em contato com estas toxinas. E se você amamenta, transfere as toxinas através do seu leite." Em seguida, o reporter acrescenta que o médico diz que amamentar o bebê, contudo é melhor que dar mamadeira (sic).

 

Das duas uma: ou o médico reconhece o exagero, ou as mamadeiras são muito mais perigosas do que imaginamos...

 

Traduzimos abaixo a crítica mais feroz a esta "evidência".

 

OBS. Se você é uma lactante fumante, não se impressione com esta bobagem e amamente, pois isso é o melhor para seu bebê e para você. Leia o nosso artigo "Fumo e amamentação" para saber mais sobre os benefícios da amamentação, mesmo você sendo fumante.

 

 

Paul L. Bergen, Research Associate Carl V. Phillips

University of Alberta School of Public Health

 

Este artigo e os press releases que o acompanharam são exemplos especialmente perturbadores de uma cruzada cultural mascarada como ciência da saúde. Como documentados em vários comentários (ex. 2-5),os resultados da pesquisa não mostraram o que os autores reinvindicaram e sugeriram. Consequentemente, a maioria dos artigos na mídia sobre um dos estudos recentes mais difundidos foram simplesmente equivocados. É uma vergonha para todos os que acreditam que estudos científicos sobre a saúde deveriam ser ciência, não apenas fachada para uma agenda política.

 

Embora o estudo tenha sido apenas uma pesquisa de opinião de leigos, foi classificado como a descoberta de uma nova ameaça para a saúde. A mídia certamente é culpada pela a cobertura, e os peritos envolvidos têm a responsabilidade de reivindicar um conhecimento que não tem. Essas falhas resultaram em declarações absurdas como a do diretor do Illinois McLean County Health Bob Keller: "Cigarros não devem ser acesos para liberar toxinas mortais" (6). Talvez em parte pelo fato de aceitarem comunicados de imprensa sem restrições (7), a maioria dos relatórios descaracterizaram o estudo como se a toxicidade do thirdhand smoke fosse comprovada (por exemplo, (8-26)). Interessante notar que grande número de cartas do público foram mais precisos do que os relatos da imprensa original.

 

Além disso, verifica-se que o estudo nem sequer representa pesquisa de opinião válida. Os métodos eram os de "push polling", o tipo de pesquisa de opinião, muito criticado, usado campanhas políticas. Tais "pesquisas" tentam convencer as pessoas colocando afirmações falsas ou enganosas em forma de perguntas, de forma a parecerem menos falsas. Esta pesquisa consistiu em uma série de perguntas sobre os riscos do tabagismo, criadas para levar as pessoas a pensar: "Puxa, eu concordo que cada ítem é um problema e estou preocupado com isso". No decorrer da pesquisa, a maioria acabou se mostrando preocupada com os assuntos que os pesquisadores queriam, inclusive com o thirdhand smoke. Isto não surpreende, dado que a "pesquisa" não foi conduzida por pesquisadores científicos especialistas em descobrir o que as pessoas realmente pensam, mas por anti-tabagitas cuja missão é convencer as pessoas sobre os males do tabaco.

 

Um exemplo dos problemas com este artigo: uma lista dos componentes do fumo do tabaco (como polônio), seguido por uma associação negativa de sua ocorrência (como a morte do russo*) e o uso disto para ilustrar suas implicações no fumo, fumo passivo e thirdhand smoke. Apesar de ser uma prática comum na retórica anti-tabagista, é inadequada para divulgações de publicações científicas baseada em conhecimento. Seria comparável a dizer que brócolis contém polônio e que ingerir o elemento através do tabaco é de alguma forma saudável.

 

O divulgação desta não-descoberta (e a subsequente e proeminente resposta na mídia para o artigo - 9, 13, 14, 24, 25, 27-29), reforça ainda mais a falha de compreensão do público sobre a diferença entre grandes riscos e riscos trivias. O princípio mais básico da toxicologia é de que a dose faz o veneno, mas, neste caso, os indivíduos foram intencionalmente induzidos para acreditar que quantidades insignificantes de toxinas têm comprovados efeitos sobre a saúde, mesmo se o perigo é trivial em comparação à coisas realmente importantes (dieta, exercício, dirigir com segurança, até mesmo exposição à fumaça).

 

Se os autores não conhecem este princípio, não deveriam estar trabalhando nesta área. Caso contrário, são culpados por intencionalmente criar pânico, preconceito e ignorância tanto no público quanto em jornalistas mal informados. Mais importante, a Pediatrics nunca deveria ter liberado este artigo para a imprensa com dados tão equivocados.

 

Os autores, no artigo e nas entrevistas para a imprensa argumentam que devido ao perigo do "thirdhand" smoke, os fumantes deveriam trocar de roupa e tomar banho antes de pegar seus filhos no colo. No entanto, incentivam a mulher fumante a amamentar uma criança inocente ao invés de dar uma mamadeira com leite livre de tabaco (6). Isso só pode significar que, apesar de repetir o mantra sem sentido de que não há nível seguro de exposição, qualquer que seja este nível não-seguro de exposição, deve ser muito menor do que a toxicidade de uma mamadeira. Os autores também sugerem, e não no artigo, mas em entrevistas relacionadas, que o nariz é um determinador preciso de toxicidade, um interessante, mas ultrapassado método pré-científico que se aproveita cinicamente da população leiga (8, 19, 24, 26).

 

Muitos leitores bem informados tem uma visão preconceituosa sobre investigação epidemiológica, e este artigo não só embasa este preconceito: mostra uma ciência desleixada, além de política, opinião e desejo disfarçados de ciência. Prevemos que daqui a 10 anos, se livros e blogs continuarem a afirmar que a epidemiologia é "ciência de sucata", este artigo será citado como um exemplo perfeito.

 

Vamos aprender alguma coisa com este estudo e usá-lo como um modelo para não deturpar investigações na esfera pública. Vamos usá-lo como uma advertência de como uma investigação pode ser mal interpretada por aqueles que já possueam modelos inadequados, e para aqueles que buscam na notícia itens que reforçam seus preconceitos. Se devemos sempre aplicar princípios de precaução, este é o lugar.

 

1. Winickoff JP, Friebeley J, Tanski SE, Sherrod C, Matt GE, Hovell MF & McMillin RC. Beliefs about the health effects of thirdhand smoke and home smoking bans. Pediatrics 2009, 123: e74-e79.

2. Beam A. It's enough to make you sick. Boston.com Jan9, 2009.

3. Hitt D. Third Hand Smoke. Davehitt.com. Jan 5, 2009.

4. Pechar, M. Third-Hand Smoke. Jawablog. Jan 7, 2009.

5. Szwarc S. "Third-hand smoke and chemtrails” invisible toxin fears. Junkfoodscience. Jan 10, 2009.

6. Stelzer C. Third-hand Smoke. Centralillinoisproud.com. Jan7, 2009.

7. Wencis V. Third-hand smoke: Another reason to quit smoking

8. Spangler JG. 'Third-Hand' Smoke - the Dust Finally Settles: Cigarette Chemicals That Linger on Clothes Might Cause Harm, New Study Finds. ABC News. Jan. 6, 2009.

9. Hardin M. Dangers of Third Hand Smoke. Arkansasmat

10. BBC News. Warning over 'third-hand smoke' BBC. Jan 6, 2009.ters.com. Jan 5, 2009.

11. Shelton D. Experts warn of the dangers of "thirdhand" smoke: Dust from cigarettes is especially harmful to kids, researchers say. Chicago Tribune. Jan 5, 2009.

12. DBTechno. Study Highlights Dangers Of Third-Hand Smoke For Kids. DBTechono.com. Jan 6, 2009.

13. Bright B. Third-hand Smoke: Toxic for Children. HealthMad. Jan6, 2009.

14. Atkins W. Third-hand smoke: a new term, more health dangers. ITWire. Jan 6, 2009.

15. Dowshen S. Dangers of Third-hand Smoke Can Be Minimized With In- Home Smoking Bans. Kidshealth January 2009.

16. Shockley L. "Third-Hand Smoke" Dangerous For Children KLTV Jan 6, 2009.

17. MedHeadlines. Third-Hand Smoke Becomes Latest Cigarette Scare. MedHeadlines. Jan 6, 2009.

18. Bartosik M. 'Third-Hand Smoke' Dangerous to Kids, Scientists Find Experts warn of the dangers of smoke even after the cigarette is put out. NBC Chicago. Jan 5, 2009.

19. Rabin RC. A new cigarette hazard: 'third-hand smoke'. New York Times. Jan 2, 2009.

20. Markel S. Third hand smoke is a hazard to baby's health. Parentcenter. Jan 4, 2009.

21. PressTV. Third-hand smoke poisoning kids. PressTV Iran. Jan 6, 2009.

22. Ballantyne CF. What is third-hand smoke? Is it hazardous? Researchers warn cigarette dangers may be even more far-reaching. Scientific American. Jan 6, 2009.

23. Devlin K. Parents who smoke only in garden may still harm children, doctors warn. Telegraph Jan 6, 2009.

24. Laidlaw S. The nose knows: Third hand smoke poses risk. Toronto Star. Jan 6, 2009.

25. UPI. 'Third-hand smoke' may harm children. UPI Dec 29, 2008.

26. Lem S. Third-hand smoke the latest danger. Sun Media. Jan 6, 2009.

27. Mulvihill K. 3rd Hand Smoke Identified As Newest Smoking Risk. CBS5. Jan 8, 2009.

28. CTV. 'Third-hand smoke' awareness may curb home smoking. CTV. Jan 6, 2009.

29. Farber K. Third Hand Smoke (Lingering in Clothing, Furniture, and Carpets): Toxic to Children. EcoChildsPlay. Jan 7, 2009.

 

* Nota: Alexander Litvinenko, assassinado em 2006, por envenenamento através de polonio-210. Uma criança teria que conviver mais de 8 mil anos com uma pessoa que fuma 30 cigarros/dia para receber a dose que envenenou o russo.

 

Atenção: Os artigos do Eufumo não tem a intenção de fornecer recomendação médica, diagnóstico ou tratamento.

 

o resumo do estudo, traduzido


 

Beliefs About the Health Effects of “Thirdhand” Smoke and Home Smoking Bans

 

Jonathan P. Winickoff, MD, MPHa,b, Joan Friebely, EdDa, Susanne E. Tanski, MDb,c, Cheryl Sherroda, Georg E. Matt, PhDd, Melbourne F. Hovell, PhD, MPHe, Robert C. McMillen, PhDb

 

Resumo

Não existe nível seguro para exposição à fumaça do tabaco. "Thirdhand smoke" é a contaminação residual da fumaça de tabaco que permanece mesmo depois do mesmo ter sido apagado. As crianças são especialmente suscetíveis à exposição de "Thirdhand" smoke. O objetivo deste estudo foi avaliar as crenças sobre saúde pelos adultos com respeito a exposição de crianças à "Thirdhand" smoke e se as crenças variam entre fumantes e não fumantes. Admitimos a hipótese que as crenças sobre "Thirdhand" smoke seriam associadas a proibição de fumar em casa.

 

MÉTODOS. Dados foram coletados através de uma pesquisa telefônica randômica feita entre setembro e novembro de 2005. A amostragem foi ponderada por raça e gênero dentro da região do Censo, com base em dados do Censo dos EUA. O questionário avaliou o nível de concordância com a afirmação que respirar o ar hoje num ambiente onde pessoas fumaram ontem pode prejudicar a saúde das crianças.

 

RESULTADOS. Das 2000 pessoas contactadas, 1510 (87%) responderam à pesquisa, 1478 (97,9%) responderam a todas as perguntas e 273 (18,9%) eram fumantes. No geral, 95,4% dos não fumantes contra 84,1% dos fumantes concordaram que fumo passivo prejudica a saúde das crianças, e 62,2% dos não fumantes contra 43,3% dos fumantes concordaram que "thirdhand" smoke prejudica as crianças. Regras rígidas proibindo o fumo dentro das casas foi mais prevalente entre não fumantes: 88,4% vs 26,7%. Na regressão logística multivariada, após o controle de certas variáveis, a crença que o thirdhand smoke prejudica a saúde das crianças foram independentemente associados com as regras de proibição de fumar em casa. A crença de que o fumo passivo prejudica a saúde das crianças não foi independentemente associada com regras proibindo o fumo dentro de casa e dentro dos carros.

 

CONCLUSÕES. Este estudo demonstra que crenças sobre os efeitos de thirdhand smoke sobre a saúde são independentemente associadas a proibição de fumar dentro de casa. Enfatizar que "thirdhand" smoke prejudica a saúde das crianças pode ser um importante elemento para encorajar proibições de fumar dentro de casa.

 

Estudo completo (PDF - inglês)

Beliefs About the Health Effects of "Thirdhand" Smoke and Home Smoking Bans